terça-feira, 9 de novembro de 2010

HISTÓRIA A PERIGO


Memória oculta – Arquivo Histórico de São Borja


Em recente pesquisa realizada pela Revista Armazém da Cultura, sobre as fontes de pesquisa utilizadas pelos acadêmicos da área de história e de jornalismo, como fonte de informação foi apontado os jornais, como sendo o principal meio pesquisado sobre a história local, e a maior dificuldade a falta de um arquivo público.


No ano de 2005 a URCAMP, através do curso de história e a Prefeitura, através do Departamento de Assuntos Culturais, efetivaram um convênio, em uma iniciativa inovadora, e com o intuito de salvaguardar para a história documentos da administração pública que estavam sendo perdidos pelo mofo, traças, ratos, e umidade. O objetivo era formar o Arquivo Histórico Municipal, que funcionaria no prédio anexo a Biblioteca Pública Municipal, e após sua catalogação e digitalização, seria aberto a qualquer cidadão que desejasse pesquisar.

Estes documentos estavam armazenados no Deposito Brasília, que fica localizado na Vila Cabeleira, muita coisa foi salva, documentos do início do século passado foram selecionados, limpos, analisados e catalogados por uma equipe de acadêmicos supervisionada por professores do curso de história da URCAMP.

Embora muita documentação tenha sido perdida durante o passar dos anos, devido a falta de cuidado adequada, documentações importantes e até então desconhecida para a história foram salvas, como uma sindicância da administração contra um funcionário da Prefeitura que recebeu recurso para confeccionar um almoço para autoridades que em São Borja estiveram por ocasião do sepultamento do Ex-presidente Getúlio Vargas.

Ocorre que este convênio venceu e não foi renovado, e muita documentação ainda encontrasse no Deposito Brasília, esperando uma salvação. Outro local que tivemos conhecimentos que existe muita documentação antiga atirada, e sem o devido cuidado, fica próximo ao Prédio da Corporação de Bombeiros, antiga Usina de energia. Moradores próximo ao local relatam, que sentem-se ameaçados devido ao perigo da transmissão de doenças, pois ratos e baratas são vistos com freqüência.

Na Prefeitura de São Borja, cada Secretaria Municipal mantém seu próprio arquivo, no Deposito do Departamento de Materiais, existe mais de 150m2 de prateleiras com documentações mais recentes da vida Pública de São Borja.

Esta mais do que em tempo da Administração Municipal voltar suas atenções para este problema, que vem de longa data, e concentrar todos estes arquivos em um único local, facilitando a vida dos agentes públicos e dos pesquisadores em geral. Com esta iniciativa São Borja que já recebe anualmente muitos pesquisadores de todo o país, em busca de informações, poderia transformasse em um pólo regional de pesquisa, além de digitalizar este material, poderia buscar colaborações de outros arquivos, conseguindo copias digitalizadas de documentações tricentenárias, referentes ao passado missioneiro de São Borja e das Missões, espalhados por diversos arquivos mundo a fora.

A Constituição Federal 1988 (Art. 215 e 216), o Decreto-Lei N° 25/37 e a Lei Federal de Arquivos (Lei nº 8.159/91) afirmam que são atribuídos ao poder publico, em todos os níveis, a guarda e a preservação dos documentos de arquivo como instrumento de apoio à administração, à cultura e ao desenvolvimento científico.

Diante desta responsabilidade cabe ao Prefeito e aos Vereadores de São Borja, efetivarem o previsto em lei, compromissando ações para a criação do arquivo público, além de definir os critérios para a gestão documental, sua recolha, organização e preservação, não só no âmbito oficial, como dos bens de memória coletiva local de caráter privado, quais sejam, as associações, as agremiações as entidades sociais, as  econômicas, ou recreativas e culturais que existiram ou que se mantém em funcionamento na cidade.

Ao banir do vocabulário cotidiano a expressão arquivo morto, a mentalidade de preservação dos dirigentes municipais, já apontarão uma nova visão diante da idéia equivocada de que arquivo público é mero depósito de papel velho.

Nunca foi tão intensa a busca do resgate histórico do meio em que se vive, como condição fundamental da efetivação da cidadania. Pois tudo é fonte para a história e tratar de fontes documentais ou documentos de arquivos é falar de evidências do que aconteceu, do que passou. A história da cidade é muito importante, não só para os escolares, mas para todos os cidadãos.

Matéria publicada no Jornal Alternativo em 2008 e reeditada no Jornal Zero Hora caderno H do mesmo ano.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Descaso com o Patrimônio Histórico e Cultural de São Borja





Pouquíssimo resta neste Município que lembre suas origens históricas. O descaso de uns, somado ao desconhecimento de outros com relação à importância e necessidade de resguardar o legado cultural do Município, determinou que a nossa tricentenária São Borja, chegue agora, nos seus 326 Anos de existência, como uma cidade quase esquecida de suas raízes. Não fosse o esforço de alguns poucos estudiosos de nossa História, usos, costumes e etnias, que se encarregam de divulgar dentro e além de nossas fronteiras o que foi a São Borja dos Sete Povos das Missões, e quase nada da História citadina seria conhecido.

Falta-nos a memória da cidade, presente nos prédios antigos, demolidos para dar lugar a outros novos que poderiam conviver com aqueles numa perfeita harmonia, assinalando nos diversos logradouros, a passagem dos tempos e o desenvolvimento local.

A arte religiosa missioneira por pouco não sucumbiu totalmente diante da onda destruidora que varreu de São Borja verdadeiras jóias artísticas que  remontavam aos primórdios da nossa formação urbana como, por exemplo, a Igreja Matriz São Francisco de Borja, a Capela Imaculada Conceição, o prédio da Antiga Telefônica e muitos outros. Também a arte cemiterial corre igual risco, se não forem tomadas medidas visando resguardá-la, medidas estas que devem ser estendidas também ao patrimônio paisagístico do Município, palco onde se desenrolaram os fatos que garantiram nossa sobrevivência como povo organizado no que é considerado como um dos grupamentos humanos permanentes mais antigos do Rio Grande do Sul.

A constituição de um Conselho Municipal de Cultura e de um Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, como órgãos de assessoramento especial para assuntos desta natureza, em que seus integrantes, sem serem remunerados, prestarão serviços considerados relevantes à sociedade São-borjense, uma contribuição inadiável dos homens públicos que atualmente, quer no Executivo ou no Legislativo, dirigem o Município no sentido de resguardar o patrimônio histórico cultural e paisagístico São-borjense.


Um povo que não preserva suas raízes é um povo esquecido de si mesmo, de sua História e de suas origens, sem legado a preservar ou a transmitir.

Parte deste texto foi a base da justificativa dos Projetos de Lei protocolados na Câmara de Vereadores no inicio de outubro de 2007, e que deram origem as Leis:
3.871
28.12.2007
Cria o Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural do Município de São Borja e dá outras providências.
3.872
28.12.2007
Cria o Conselho Municipal de Cultura do Município de São Borja e dá outras providências.

As medidas que foram propostas a Câmara e viraram leis, não foram regulamentadas e colocadas em prática até hoje pela Prefeitura Municipal, o que demonstra o seu descaso, desconhecimento e desinteresse pela causa cultural e resgate histórico do Patrimônio Cultural de São Borja.

Mas a culpa não é só dela a Câmara  Municipal, composta por 10 vereadores, jamais cobrou a colocação em prática desta lei, que cria dois Conselhos Municipais, fundamentais para a preservação do legado cultural e histórico de nossa cidade. Enquanto isso o setor cultural segue com dificuldade de se organizar e assim sem força para cobrar, pois o próprio Centro Cultural de São Borja com mais de 20 anos de existência, hoje é sem teto, e perdeu muito tempo acreditando nas promessas que lhe foram impostas por políticos aproveitadores.

A aplicação destas duas Leis são fundamentais para resgatar uma dívida dos cidadãos de ontem e hoje para com as gerações futuras de nossa terra. Para que não ocorra casos como pessoas queimando Santos Jesuíticos Missioneiros, pichando prédios, arquitetos preocupados em demolir patrimônios centenários, como estes na foto que ilustra a matéria, que não existem mais, ou estão sendo demolidos, ou descaracterizados, trocando suas portas e janelas. E para que finalmente tenhamos a tão esperada Lei de Incentivo a Cultura Municipal um anseio a todos os guerreiros batalhadores que vivem e sustentam suas famílias com muito esforço através da arte e cultura.

Algumas Leis existentes no Município com relação a Cultura e o Patrimônio Histórico na sua maioria sem aplicação até hoje.

1.312
15.01.1985
Dispõe sobre a proteção do Patrimônio Histórico e Cultural do Município de São Borja.
1.555
05.12.1988
Institui o Fundo de Cultura e dá outras providências.
2.099
10.11.1993
Isenta do pagamento de ingresso, nos estabelecimentos esportivos e culturais, as pessoas acima de 65 anos.
2.299
03.05.1995
Isenta de cobrança de ingresso, em todos os eventos culturais e desportivos realizados no Município de São Borja, pela Prefeitura Municipal ou opor entidade por ela patrocinada de alguma forma, as pessoas mencionadas e dá outras providências.
2.415
21.06.1996
Cria a Semana Cultural Apparício Silva Rillo, no Município de São Borja e dá outras providências.
2.750
20.03.2000
Institui a Comenda Aparicio Silva Rillo, aos destaques culturais em suas diversas formas de expressão.
2.989
01.04.2002
Institui o a meia-entrada em locais públicos de cultura, esporte e lazer para doadores regulares de sangue e dá outras providências.
3.068
19.11.2002
Institui os procedimentos de tombamento para a proteção ao patrimônio cultural do Município e dá outras providências.
3.491
01.07.2005
Determina a inclusão, no Patrimônio Histórico do Município de São Borja, dos Pórticos do antigo Estádio General Vargas e dá outras providências.
3.615
28.06.2006
Determina a inclusão do Cemitério da Figueira no Patrimônio Histórico Cultural do Município de São Borja.
3.634
23.08.2006
Cria a Semana Cultural Presidente João Goulart e dá outras providências.
3.636
24.08.2006
Cria a Semana Cultural Presidente Getúlio Vargas e dá outras providências.
3.637
24.08.2006
Cria Semana Cultural Governador Leonel Brizola e dá outras providências.
3.686
31.10.2006
É tombado como Patrimônio Cultural do Município o Festival Ronda de São Pedro e dá outras providências.
3.687
31.10.2006
Ficam incluídos no patrimônio Cultural do Município de São Borja os Desfiles da Semana da Pátria realizados no Bairro do Passo e do Centro.
3.691
13.11.2006
Inclui imóvel que menciona ao Patrimônio Histórico e Cultural do Município de São Borja e dá outras providências.
3.871
28.12.2007
Cria o Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural do Município de São Borja e dá outras providências.
3.872
28.12.2007
Cria o Conselho Municipal de Cultura do Município de São Borja e dá outras providências.
3.799
06.07.2007
Dispõe sobre a concessão de meia-entrada, na aquisição de ingressos para eventos artísticos, culturais e desportivos, aos professores do sistema de ensino do município de São Borja.


Matéria publicada no ano de 2008  no Jornal Alternativo


Uma Cruz em Minha cidade


Um menino viajava de carro com seu pai pela BR 287. Ficou impressionado com tantas cruzes ao longo do caminho. Perguntou ao pai: Pai porque há tantas cruzes aqui? O pai respondeu; cada uma destas cruzes meu filho, representa alguém que morreu.  E você, fica impressionado, quando vê uma cruz à beira do caminho? A cruz sempre lembra a morte.

Assim como no Calvário, São Borja possui três cruzes na entrada, mas com outro significado, cada uma, representa um século de história. Um belo monumento sem duvida nenhuma.

Pena um engano quanto a tipologia da Cruz de Lorena, que na época do tricentenário, foi adotada como símbolo do município, como sendo a Cruz representativa das Missões e não a Cruz Missioneira. Foi uma tentativa de destacar São Borja em meio aos demais povos Missioneiros. Adotado por diversas entidades sociais, brasão do município, citada em musicas, usadas no peito por muitos, embeleza diversos monumentos e serve de símbolo para seminários que projetam o futuro de São Borja.

Os São-borjenses, não notam diferença e costumam dizer que a Cruz de Lorena e a Cruz Missioneira, são a mesma, mas qualquer missioneiro que venha dos outros povos, a primeira coisa que se pergunta é o porque que a Cruz de São Borja é diferente.

É diferente pois sua representação e simbologia tem significados diferentes, a Cruz de Lorena é um tipo de Cruz, também utilizada nas Missões, assim como a Cruz de Borgonha, Cruz Arquiepiscopal ou Cardinalícia, Cruz Episcopal e Cruz Patriarcal,  mas a Cruz Missioneira que é símbolo de outros 29 povos Missioneiros,  representa hoje o símbolo que  identifica a todo o Estado Gaúcho.
Na realidade a Cruz Missioneira é uma réplica da "Cruz de Caravaca", sendo “Caravaca de La Cruz”, uma cidade na província de Múrcia, na Espanha, da onde teve origem grande parte dos Padres Jesuítas que aqui no Novo Mundo chegaram para catequizar os Guaranis, e construir um modelo de civilização, até então diferente de tudo visto na Europa.

A Cruz Missioneira tem por características principais os seus braços de haste dupla, e neles, ou na sua ponta, os trevos trifólicos, dos quais o terceiro ou do meio se acha invariavelmente cortado de forma reta, é o que diferencia da Cruz de Lorena que os trevos são completos.

E em mapa encontrado recentemente no Arquivo Geral do Vaticano, datado de 1691, e que contem a disposição e distância dos Povos Missioneiros, consta em cima de cada Redução, uma cruz missioneira, o que reafirma cada vez mais como o símbolo máximo dos 30 povos.

“A Cruz Missioneira, é um simbolismo formidável, regional e universal e abandonando sua matéria de grês ou pétrea, cria raízes, mostra seiva vital, transforma-se em árvore e apresenta folhas de esperança, flores de beleza especial e frutos de libertação, cultura e progresso para sempre.”
Padre Arthur Rabuske

Já está em tempo de São Borja, concertar o engano e erguer a sua verdadeira cruz missioneira, e travar o seu destino ao progresso que com paixão é esperado por muitos. Fica a sugestão aos novos governantes que coloquem uma réplica da cruz missioneira de São Miguel das Missões no trevo de acesso a São Luiz Gonzaga, e outra no Cais do Porto de São Borja, porta de entrada dos missioneiros pelo “Passo de São Borja”, por onde a 2º fase das Reduções começaram.
Matéria publicada no Jornal Alternativo em 2008.

Atualização: A Prefeitura de São Borja, mandou confeccionar duas cruzes missioneiras, obra talhadas pelo artista plástico Rossini Rodrigues, foram colocadas no trevo da Vila Cabeleira e outra no trevo da ponte da Integração. Uma bela obra registrando a ligação de São Borja com o seu passado missioneiro. 

PF investiga pastor suspeito de queimar imagem de Jesus Cristo





Crime aconteceu em julho no RS; imagem de São Pedro também foi destruída. 

Peças estavam registradas no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

A Polícia Federal de São Borja (RS) instaurou inquérito para investigar um pastor evangélico suspeito de ter queimado duas imagens sacras protegidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O crime aconteceu no final de julho deste ano. As peças destruídas retratam São Pedro e Jesus Cristo morto.

As peças foram esculpidas por índios guaranis durante o período de catequização, há mais de 300 anos. Elas faziam parte de um grupo de 24 peças da mesma época, segundo Fernando Rodrigues, diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Borja. "Elas pertenciam, na ocasião do crime, à família de Liôncio Chagas, 77 anos. Ele morreu dois dias depois de as imagens serem queimadas e destruídas." Rodrigues disse ainda que as duas peças em questão valiam entre R$ 20 mil e R$ 60 mil.

O caso foi denunciado por Rodrigues ao Ministério Público do estado, no dia 28 de agosto. "Recebemos a denúncia e pedimos que a Polícia Federal apurasse o crime. O inquérito foi instaurado no dia 22 de outubro. O prazo para conclusão é de 30 dias, mas acredito que a investigação seja encerrada em tempo menor", disse Érico Fernando Barin, promotor de Justiça da cidade.

Rafael Domingues Martins, delegado federal responsável pelo caso, disse ao G1 que o pastor é considerado investigado. "Ele ainda não é tratado como acusado. Precisamos tomar muito cuidado com o caso e por isso prefiro optar pelo sigilo. Investigamos um possível furto e o crime contra o patrimônio cultural." O pastor foi procurado pela reportagem do G1, mas ele não quis comentar o caso.
  

 O sumiço
As duas imagens, de São Pedro e de Jesus Cristo morto, foram retiradas da casa de Chagas sem a autorização dele. "Meu irmão estava muito doente. Uma vizinha começou a levar um pastor para rezar. Durante uma dessas orações, o pastor afirmou que a doença de meu irmão foi provocada pela presença das imagens sacras na casa dele", disse Ana Chagas Mendes, 62 anos.

O crime só foi descoberto pela família dias após a morte de Chagas, quando foram fazer o inventário das peças. "A família pretendia fazer a doação de todas as peças para o Museu Municipal Aparício Silva Rillo", disse o promotor. Hoje, as peças estão em poder do museu.


 O reencontro
O Ministério Público entrou com uma ação cautelar para reaver as peças retiradas da casa de Liôncio. "O mandado de busca e apreensão foi cumprido no dia 28 de agosto. Um oficial de Justiça conseguir encontrar parte de uma das imagens, a de Cristo morto, parcialmente queimada e em um cômodo da igreja evangélica. A imagem de São Pedro nunca foi encontrada e acredito que ela tenha sido totalmente destruída", disse o promotor.

"Quando souberam do sumiço das peças, a mulher de Chagas lembrou que a única pessoa estranha que esteve em sua casa foi o pastor evangélico. Ela também lembrou que o pastor insistia em tirar da casa as imagens sacras, mas ela negou essa possibilidade por saber do valor histório e cultural delas", disse Rodrigues.


 Valor histórico
Para Isabela Marques Leite de Souza, museóloga do Museu das Missões, em São Miguel das Missões, o valor das peças destruídas e das outras 22 que permanecem intactas é incalculável. "As imagens fazem parte da história do país, do período jesuítico e não é possível dimensionar valores. Em termos culturais e artísticos, posso dizer que são de grande importância."

Fui notícia no G1 - matéria publicada em 26/10/2007

São Borja é uma das temáticas da XII Jornada internacional sobre Missões Jesuíticas.



O evento acontece em Buenos Aires, e começou no último dia 23, com extensa programação e vai até hoje 26, ocorre anualmente em países diferentes e reúne as maiores personalidades do estudo da história jesuítica missioneira mundial.

A Jornada conta com pesquisadores de renome no cenário mundial, como: Dr. Bartomeu Meliá, um dos maiores estudioso da língua Guarani, Dr. Arno Alvarez Kern, sumidade em arqueologia no Brasil, Yoshimi Orii, Japonês que estuda a influência Japonesa na cultura missioneira, Claudete Boff, escritora e estudiosa da arte Jesuítica Missioneira. Darko Sustersic, grande estudioso da obra de Giosepp Brasaneli, Luiz Antonio Bolcato Custódio, historiador e pesquisador do IPHAN, atualmente faz pesquisas em torno dos retábulos (Altares) missioneiros, Martín Morales, Guillermo Wilde y Eduardo Neumann, entre outros.

Os Simpósios temáticos ocorrem geralmente pelas tardes no Convento Mercedario, durante as manhãs os participantes debatem os assuntos em mesas redondas.  Alguns trabalhos em destaque:

Vladimir Fernando Stello y Matilde Villegas: “El paisaje cultual de la región de las Misiones, Río Grande do Sul, Brasil”.

Ceres Karam Brum: “Esta terra tem dono´. Representações do passado missioneiro no Rio Grande do Sul. O mito de Sepé Tiaraju

Roselene Moreira Gomes Pommer: “Missioneirismo: a produção de uma identidade regional”.

Raquel Machado Rech: “Investigação Geofísica com Georadar nas pesquisas arqueológicas da reducto jesuítica de Santo Angelo Custódio (RS, Brasil)”.

Julio Ricardo Quevedo dos Santos: “Romaria do Caaró: memória e identidade”.

Rodrigo Maurer: “Redução de San Francisco de Borja: a expressão da função política da Companhia de Jesus a leste do Rio Uruguay”.

Este último do acadêmico do curso de história da URCAMP, Rodrigo Ferreira Maurer, Prof. Biju como é mais conhecido, trata da importância  de São Francisco de Borja, frente aos demais povos, aborda uma ampla discussão sobre a data de fundação de São Borja e vai ser debatido por todos estes pesquisadores, em busca de nossas origens.

Matéria Publicada no Jornal Alternativo 2008.

Pintura tricentenária integra o acervo do Museu Apparício Silva Rillo (Museu Missioneiro)




Na última segunda-feira, o Museu Municipal recebeu uma doação de 21 peças que faziam parte de um altar em uma casa de chão batido nos subúrbios do município, entre estas 08 peças são da época reducional, todas inventariadas pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. As doações foram recebidas após 08 meses de tratativas do Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura com a família Santos Chagas que, a mais de cinco gerações vem conservando e preservando as estatuárias.

Dentre as imaginárias, as que mais se destacam são: um Santo Isidro Lavrador, que na época reducional costumeiramente era levado juntamente com os Índios que trabalhavam na lavoura para abençoar o seu trabalho; um Senhor dos Passos, em tamanho natural, e a principal, mais importante e rara obra missioneira, uma pintura em óleo e tempera sobre madeira, pintura de Nossa Senhora do Socorro, de formato irregular, simétrica. Apresenta na parte superior, uma meia abóboda ladeada por torres. Na parte inferior, reto ao centro, figura feminina com coroa, cruz na mão esquerda e criança no colo, tendo na mão direita esfera com cruz. Túnica longa e manto curto. Base com dragão de uma cabeça e cauda. Dois cavalos com dois cavaleiros jovens, com chapéus de penachos apontando para a figura central, o da direita aponta com a mão esquerda eo da esquerda com a mão direita. Ao fundo, árvores, nas laterais da Santa, duas árvores (uma de cada lado) e, presas a elas, duas onças pintadas.

Estas peças estão passando por processo de limpeza, remoção de fungos e insetos, visto que estavam tomadas por cupim. Na próxima Sexta-feira, equipe técnica do IPHAN, vem até a cidade para avaliar as peças e passar informações técnicas. Dentro de trinta dias espera-se poder em ato com a família doadora inaugurar a exposição das peças no Museu Municipal Apparício Silva Rillo.

O estado de conservação das peças é precário, não culpa da família, mas sim culpa da entidade que realizou o inventário e não passou informações de como dar manutenção as peças. O DAC já solicitou as cópias de todas as fichas de identificação da estatuaria de São Borja que fazem parte do Inventário da Imaginária Missioneira, para poder realizar trabalho de investigação, procurando localizar e passar informações técnicas para os proprietários de estatuária e da mesma forma conhecer e avaliar cada uma.

Foram catalogadas 510 imagens religiosas de procedência missioneira pelo Inventário de Imaginária Missioneira, realizado no início da década de 1990 por meio de uma parceria entra a Fundação Nacional Pró-Memória e a Fundação Vitae. Desse total, a coleção do Museu das Missões (São Miguel) representa aproximadamente uma quinta parte e atualmente o IPHAN é o responsável pela fiscalização e controle destas peças.

Temos plena certeza que o Museu é o melhor lugar para que uma obra de arte como esta possa estar, proporcionando assim, acesso a mais pessoas, e propagar a cultura, não para encher os olhos, mas sim para modificar o olhar.

Em breve temos plena convicção que o Museu Municipal tornar-se-á o principal Museu de Estatuária Missioneira das Missões, sabemos que possuímos acervo para tal em nosso município, e basta apenas a concordância dos colecionadores.

Hoje, de forma alguma pode se falar em arte missioneira sem citar São Borja, já possuímos um Museu que é referencial nas Missões e assim, a cada dia que passa São Borja firma-se como o principal Berço Missioneiro, tanto pela riqueza histórica, quanto pelas pessoas de valores que este torrão produz para o Brasil.

A Missioneira Itaqui



                A vizinha cidade de Itaqui está de olho no turismo missioneiro e querendo integrar-se à Rota Missões. Itaqui quer fazer parte da indústria sem chaminés, a indústria do turismo, e para isto está intensificando as pesquisas e o resgate cultural, no sentido de qualificar-se para receber e ter o que mostrar aos turistas.  O que não é difícil, pois os casarões do inicio do século passado, aliados aos seus belos muros de pedra, e a hospitalidade do povo de Itaqui, por si só garantiria uma visita agradável.

A municipalidade está se estruturando: o Cais do Porto passou por uma ampla reforma e  ficou um dos mais belos da fronteira; o Mercado Público de Itaqui, datado de 1907, patrimônio histórico tombado pelo IPHAE, está com projeto tramitando no Ministério da Cultura para ser restaurado e transformar-se, no pólo turístico cultural da região; também há a colocação de diversos monumentos que relembram o passado de Itaqui, como, por exemplo, uma cruz missioneira no Parcão, símbolo máximo das cidades missioneiras. Existe um projeto para homenagear, no Sesquicentenário de Itaqui, à Hemetério José Veloso da Silveira, o emancipador de Itaqui. Este projeto já está em negociação com os artistas plásticos Rossini Rodrigues e Jorge Costa. Provavelmente será aplicado e instalado no novo Cais do Porto de Itaqui.

               Há quem discorde que Itaqui não é missioneira. Porém, a Revista Armazém da Cultura publicou em uma de suas edições uma pesquisa confirmando definitivamente que o povo de “Ytaqui” é mais antigo, por exemplo, que a cidade de Santo Ângelo. Em 1690, Itaqui já aparecia no mapa dos povos missioneiros feito pela Companhia de Jesus. Na realidade era uma Capela ou ponto avançado de La Cruz. A revista conseguiu uma cópia deste documento, já que seu original encontra-se no Arquivo Geral do Vaticano. O mapa é um documento que permitirá, com propriedade, que a cidade tricentenária de Itaqui entre para a Rota Missões e faça parte do caminho das Missões, e possa assim trabalhar articulada com a cidade de São Borja em busca de rotas alternativas para o desenvolvimento do turismo regional.

Itaqui, já acertou na Cruz.

                 Recentemente a Prefeitura Municipal de Itaqui mandou colocar uma cruz missioneira no Parcão da cidade. O monumento destaca-se pela beleza, todo em pedra grês, em um único bloco. Está posto em um local de grande visibilidade. E agora a municipalidade trabalha incentivando o resgate de suas raízes e apoiando a educação patrimonial de forma que enalteça a auto-estima da população. Uma bela iniciativa. Em São Borja optou-se colocar a cruz de Lorena no trevo da cidade, porém ela não simboliza o município como um povo missioneiro. Diferentemente da Cruz Missioneira (adotada por Itaqui) que é a cruz usada em todos os povos das missões.

Matéria publicada em 2008 no Jornal Alternativo