terça-feira, 12 de junho de 2012

A memória da cidade: 329 anos de fundação de São Borja


Pouquíssimo resta neste Município que lembre suas origens históricas. O descaso de uns, somado ao desconhecimento de outros com relação à importância e necessidade de resguardar o legado cultural do Município, determinou que a nossa tricentenária São Borja, chegue agora, nos seus 329 Anos de existência, como uma cidade quase esquecida de suas raízes. Não fosse o esforço de alguns poucos estudiosos de nossa História, usos, costumes e etnias, que se encarregam de divulgar dentro e além de nossas fronteiras o que foi a São Borja dos Sete Povos das Missões, e quase nada da História citadina seria conhecido.


Falta-nos a memória da cidade, presente nos prédios antigos, demolidos para dar lugar a outros novos que poderiam conviver com aqueles numa perfeita harmonia, assinalando nos diversos logradouros, a passagem dos tempos e o desenvolvimento local.

A arte religiosa missioneira por pouco não sucumbiu totalmente diante da onda destruidora que varreu de São Borja verdadeiras joias artísticas que remontavam aos primordios da nossa formação urbana como, por exemplo, a Igreja Matriz São Francisco de Borja, a Capela Imaculada Conceição, o prédio da Antiga Telefônica e outros. Também a arte cemiterial corre igual risco, se não forem tomadas medidas visando resguardá-la, medidas estas que devem ser estendidas também ao patrimônio paisagístico do Município, palco onde se desenrrolaram os fatos que garantiram nossa sobrevivência como povo organizado no que é considerado como um dos grupamentos humanos permanentes mais antigos do Rio Grande do Sul.

Um povo que não preserva suas raízes é um povo esquecido de si mesmo, de sua História e de suas origens, sem legado a preservar ou a transmitir. Mesmo com atraso, é verdade, mas temos que resgatar esta divida dos cidadãos de ontem e hoje para com as gerações futuras de nossa terra. Temos que despertar o ideal preservacionista em nossa comunidade, precisamos mobilizar a sociedade e salvar alguma coisa.

Matéria publicada no Jornal Armazém da Cultura de outubro de 2011 na coluna OPINIÃO

Bens da Humanidade sob os cuidados dos São-borjenses



Capa da Edição de Outubro de 2011

No século XVII, inicia-se no Sul da América Latina, um processo inovador de grande desenvolvimento, criando o sistema de reduções Jesuítico-guaranis, o que totalizou 30 Povoados Missioneiros sendo que no atual território do Rio Grande do Sul, tiveram suas fundações concentradas na segunda metade do século XVII, totalizando Sete Povos, e mais 08 capelas que ficavam localizadas nos intervalos de um povoado a outro, aproximadamente de 04 em 04 léguas de distância uma da outra, em meio as Estâncias de gado e ervais. Estas Capelas, serviam de local de descanso, pernoite e principalmente um local de contemplação a Deus, aonde os peregrinos que se deslocavam de redução para redução faziam suas paradas com segurança.


Mapa com a distância entre os povos Missioneiros




Como a principal missão da Companhia de Jesus em suas missões pela América, era a difusão da doutrina, a catequese, e o viver em comunidade. Esse processo de transculturação, gradativamente foi transformando o Guarani, e fazendo com que assimilasse os elementos da cultura européia transmitida pelos Jesuítas.

A vida comunitária nesta época era desenvolvida em função da Praça Missioneira e tendo como pano de fundo a magnífica Igreja, que seguia os padrões estéticos do barroco, que foi adotado pela Igreja Católica, como forma de encantar as almas. Conforme pregava René Huyghe, “se a arte pode seduzir a alma, perturbá-la, encantá-la nas profundezas não percebidas pela razão, que isso se faça em benefício da fé”.

Planta antiga da Redução de São Francisco de Borja


Por cerca de um século e meio, desenvolveu-se uma cultura cujos remanescentes, reportam sua materialidade, em um alto grau de desenvolvimento, na área da arquitetura e das artes, na sua organização social e política.

O sistema de oficinas desenvolvidos pelos Jesuítas nas Reduções, transformaram os Índios em hábeis artífices metalúrgicos, tipógrafos, escultores, pintores, músicos, ceramistas, tecelões, fabricantes de instrumentos musicais, entre outras manifestações.

A monumentalidade da riqueza da estatuária missioneira de São Borja, evidência o nível do desenvolvimento que chegou o Povo de San Francisco de Borja, em relação aos demais povos. O mesmo Índio tido pelos padrões culturais da época como indolente e incapaz, foi magistral em desenvolver um magnífico conjunto de esculturas.

Neste contexto cabe destacar a influência do Jesuíta Giuseppe Brazanelli (Irmão Brazanelli), que em nove anos que passou em São Borja, resultou em muitas obras de destaque nas Missões, sem duvida eu arrisco dizer que foi uma figura tão importante quanto ou mais que o Padre Antônio Sepp.

A figura de Brazanelli é impar para a Companhia de Jesus, teve sua formação em Milão e uma passagem por Sevilha já na condição de artista formado, mas em São Borja pode colocar em pratica suas habilidades como escultor, pintor, arquiteto, engenheiro e militar.

Sua influência na catequização dos Guaranis, e seus ensinamentos das técnicas que proporcionaram a Imaginária Missioneira de São Borja uma singularidade na expressão plástica.

Com o fim da guerra guaranítica (1754 – 1756), os índios, derrotados ateiam fogo as suas casas e oficinas poupando apenas as igrejas, com o abandono das igrejas, muitas famílias, se apoderam dos Santos das Capelas e das Igrejas, por isso que até hoje é comum pessoas possuírem Santos Missioneiros, que vem de muitas gerações, dentro da mesma família.

Em 08 de março de 1940, o Presidente Getúlio Vargas cria, em São Miguel, o Museu das Missões, com a finalidade de reunir e conservar as obras de arte, ou de valor histórico relacionadas com os Sete Povos das Missões, com projeto arquitetônico de Lucio Costa e resumos históricos de Aurélio Porto e Sergio Buarque de Holanda.


Estatuária Missioneira de São Borja

Museu Missioneiro de São Borja

Estatuarias Jesuítica Missioneira de São Borja

Estatuária Missioneira de São Borja


Escultura Missioneira

Acervo Museu Missioneiro de São Borja

 
O número total de peças reunidas no Museu Missioneiro chega a 146, tendo sido recolhidas intempestivamente de 31 localidades diferentes, exceto São Borja, conforme relata o Arquiteto Lucio Costa em relatório ao Ministro Gustavo Capanema, que devido as mas condições das estradas e muita chuva, a estatuária de São Borja não foi recolhida, cabe destacar que quando do inicio das obras no Museu Missioneiro, de São Miguel, este possuía apenas três imagens.

Em 1987, por conta das comemorações dos 300 anos de São Miguel, começou a se discutir a preservação dos remanescentes Missioneiros, e que resultou em 1989 no projeto de inventário dos Bens Móveis e Imóveis produzidos nas Missões Jesuíticas dos Guaranis, que procurou registrar e pesquisar a estatuária que estavam em Museus, Igrejas, Instituições educacionais, hospitais, em posse de particulares e também no mercado de arte e antiguidades.

Ao final do inventário 510 peças foram registradas, destas 50% estão de posse de coleções públicas e 50% de coleções particulares, cabe destacar que o maior coleção é a do Museu das Missões que totalizou 94 peças inventariadas, embora na década de 40 existia bem mais. São Borja possui 82 peças inventariadas, sendo 06 de posse da Igreja, 40 no Museu Municipal Apparício Silva Rillo, 35 com particulares e 01 desaparecida ou (foi queimada).

Estima-se em 1000 imagens a produção de estatuária dos Sete Povos. Porém, a falta de conservação, as condições climáticas, transportes precários, incêndios, roubos e outras contingências contribuíram para o desaparecimento desse patrimônio.

A atual legislação de proteção do patrimônio Histórico, não oferece mecanismos que assegurem o acesso a esses bens pelas instituições oficiais, dificultando assim, as ações de inventário e tombamento. O próprio Inventário da Estatuária Missioneira sofreu com isso, quando tentou inventariar 110 peças de um famoso colecionador de peças sacras na cidade de Porto Alegre, e teve o acesso negado, veja que esta coleção particular, é maior que a do próprio Museu das Missões.

Quando do Inventário, muitas pessoas deixaram de apresentar suas peças para serem inventariadas, com medo de serem tomadas, pelos órgãos oficiais, como ocorreu na década de 40, e creio que esta realmente embora intempestiva foi a melhor solução, pelo menos, estas peças tomadas da população na época, estão com sua preservação garantida, ao contrario das peças de particulares, que muitas vezes estão a mercê de ataque de fungos e insetos, variações meteriológicas e trafego ilegal de obras de arte.

No ano de 2007, conversava com uma família que possuía um acervo riquíssimo, e relatou que antes das peças serem inventariadas, teve duas imagens furtadas, e por ultimo, o fato que resultou na doação de todo o seu acervo ao Museu Municipal Apparício Silva Rillo, foram levadas por um Pastor da Igreja Universal, duas peças, para serem queimadas em um culto, um São Pedro (Inventário Nº RS/91-0001-0052), e um senhor Morto (Inventário Nº RS/91-0001-0053), que restou apenas o tronco intacto.

O desconhecimento da sociedade sobre esse acervo coloca em risco sua integridade. Acrescenta-se a isso a rápida deteriorização do acervo, e a ignorância do real valor dessas peças por alguns detentores, o que provoca danos muitas vezes irreparáveis.

É necessário a tomada de medidas enérgicas pelo Poder Público, e adotada políticas públicas de preservação dos remanescentes histórico-cultural missioneiro, como um laboratório técnico de restauro nas Missões, divulgação de informações técnicas e cuidados na preservação, sistema de tombamento, que é extremamente importante e vital para a preservação do patrimônio artístico do Sul do país.

Matéria publicada no Jornal Armazém da Cultura Edição 03 de outubro de 2011.

São Borja precisa urgentemente de uma lei de Incentivo a Cultura Municipal

A poucos dias lancei uma idéia em uma comunidade social na internet, e que repercutiu muito bem. Postei lá que São Borja precisava urgentemente de uma Lei de Incentivo a Cultura Municipal, o que não é nenhuma novidade, pois em diversas cidades do Estado, já possuem leis de incentivo a cultura a bastante tempo.


A diversidade faz de nossa cidade referência cultural, para o Estado, tanto que somos considerada por Decreto Estadual como “Cidade Histórica”. Uma Lei de incentivo a cultura municipal impulsionaria de forma significativa a economia da cultura da cidade, pois os agentes culturais, (artistas, músicos, escritores, entidades culturais, etc), poderiam tirar do papel seus brilhantes projetos, com o apoio de pessoas físicas e jurídicas da cidade, sem depender do Poder Público, que geralmente não ajuda, além de diminuir significativamente a quantidade de agentes culturais que perdem tempo procurando o Executivo e o Legislativo, até porque eles tem outras prioridades.

Imaginem um músico podendo comprar seu instrumento, lançar seu CD, um show de cada grupo no verão no Cais do Porto, o escritor lançar o seu livro, as invernadas artísticas comprar uma pilcha melhor, fazer uma viagem, uma entidade cultural realizar um festival, os artistas plásticos embelezarem a cidade com suas obras, qualquer atividade cultural pode ser beneficiada, e a cidade ganharia muito, com oficinas, seminários, cursos em benefício do setor cultural, ganharia em qualidade de vida e tornaria os espaços públicos mais aprazíveis.

Com esta lei que oferecerá benefício fiscal (à pessoa física ou jurídica) como atrativo para investimentos em cultura. Dependendo da lei, o abatimento em impostos pode chegar até a 100% do investimento.

Cada lei tem um funcionamento específico. As leis federais oferecem isenção no Imposto de Renda das pessoas físicas ou jurídicas. Já as estaduais proporcionam isenção de ICMS e as municipais, de IPTU e ISS.

Na internet surgiu a idéia de se fazer um projeto de lei de iniciativa popular, o que para nós seria muito fácil de se conseguir as assinaturas, até cheguei a conversar com algumas entidades, todos favoráveis, mas pensando melhor é perder tempo, pois se o Executivo Municipal não quiser a lei, ela não vai sair, pois a iniciativa tem que ser da Prefeitura, é atribuição dela fazer esta lei.

Fica aqui o apelo para que o Poder Público seja sensível a esta causa, se não tem condições de bancar a atividade cultural na cidade, que transfira para comunidade esta iniciativa de poder apoiar a cultura municipal.

Matéria Públicada no Jornal Armazém da Cultura Edição 02 de Setembro de 2011, na coluna OPINIÃO.

A Cruz Missioneira

São Borja possui três Cruzes de Lorena na entrada da cidade, cada uma representa um século de história. Um belo monumento sem dúvida nenhuma. No entanto, a tipologia da cruz adotada na época do tricentenário, em 1982, não é a mesma dos outros 29 povos missioneiros: a Cruz Missioneira!

Cruz Missioneira ou Marco Missioneiro
Colocado junto ao Cais do Porto em 2012 durante a Primeira Semana Missioneira

A Cruz de Lorena foi adotada por diversas entidades sociais e está até no brasão do município. Os são-borjenses não notam a diferença, mas qualquer missioneiro que venha dos outros povos, a primeira coisa que pergunta é o porquê da Cruz de São Borja ser diferente. Mas faz diferença qual cruz foi adotada? Sim! pois sua representação e simbologia tem significados diferentes. A Cruz de Lorena também é utilizada nas Missões, assim como a Cruz de Borgonha, a Cruz Arquiepiscopal ou Cardinalícia, a Cruz Episcopal e a Cruz Patriarcal. No entanto, a Cruz Missioneira é símbolo dos outros 29 povos Missioneiros e representa hoje o símbolo que identifica as Missões para todo o Estado gaúcho.

Na realidade a Cruz Missioneira é uma réplica da "Cruz de Caravaca", sendo “Caravaca de La Cruz”, uma cidade na província de Múrcia, na Espanha, de onde teve origem grande parte dos Padres Jesuítas que aqui no Novo Mundo chegaram para catequizar os índios Guaranis, e construir um modelo de civilização, até então diferente de tudo visto na Europa.

A diferença física entre a Cruz Missioneira e a de Lorena são detalhes, mas os significados são grandes. A primeira tem nas pontas os trevos trifólicos, dos quais o terceiro ou do meio se acha invariavelmente cortado de forma reta, em quanto que a segunda os trevos são completos, redondos.

Em mapa encontrado recentemente no Arquivo Geral do Vaticano, datado de 1691, e que contém a disposição e distância dos Povos Missioneiros, consta em cima de cada Redução, uma Cruz Missioneira, o que reafirma cada vez mais como o símbolo máximo dos 30 povos.

A Cruz Missioneira era usada pelos índios como símbolo do bem contra o mal. Os dois braços simbolizam a fé redobrada e o portador da cruz ao fazer um pedido a Deus devia mantê-lo em secreto. A cruz é considerada como um amuleto, uma proteção espiritual contra todos os males.

Já existe movimento em São Borja para promover a Cruz Missioneira. Recentemente, a
 Prefeitura mandou confeccionar duas Cruzes Missioneiras, obras talhadas pelo artista plástico Rossini Rodrigues, que foram colocadas no trevo da Vila Cabeleira e outra no trevo da ponte da Integração.

Fica a sugestão aos governantes que coloquem também uma réplica da Cruz Missioneira nos trevos de acesso à cidade, e outra no Cais do Porto de São Borja, porta de entrada dos missioneiros, no século XVII. Lembrando que na redução eram quatro, uma em cada canto da praça missioneira.

Em Itaqui colocaram a sua no Parcão.

Matéria publicada no Jornal Armazém da Cultura Edição 01 de agosto de 2011.

Um Túnel Subterrâneo em São Borja

Em 2007, foi aberto uma trincheira para instalação de tubulação telefônica junto ao meio-fio, em frente a Igreja Matriz e Prefeitura, onde foram encontrados vestígios das fundações da primeira Igreja de São Borja. Um fato curioso é que na época do achado ocorreu uma chuva em que encheu ambas as trincheiras.

Trincheira em frente a Prefeitura de São Borja cheia de água.

Trincheira em frente a Igreja Matriz quase vazia
A primeira foto mostra, em frente à Prefeitura, que a trincheira conservava-se cheia de água, enquanto que, a menos de 10 metros, na continuação da trincheira, em frente a Igreja (segunda foto), praticamente estava vazia. A dúvida é: para onde foi a água? Situações assim é que leva a comunidade a conjecturar a idéia de um túnel. Detalhe as fotos foram tiradas, praticamente no mesmo instante.

Segundo a arqueóloga Raquel Rech “é possível confirmar a existência de vestígios da arquitetura Jesuítica no subsolo do entorno da Praça da Matriz”. E para isso somente através de um Projeto de Escavação Arquieológica, nos moldes do que já foi feito em Santo Ângelo, é que se pode afirmar se realmente ainda há vestígios da redução, de 300 anos atrás, no centro da cidade. Esse tesouro subterrâneo pode gerar muita riqueza ao município através do desenvolvimento do turismo.

Matéria publicada na edição 01 do Jornal Armazém da Cultura de agosto de 2011.

A São Borja Missioneira - Um tesouro sob os nossos pês.

De tempos em tempos este assunto vem à tona. No século passado muito se discutiu sobre os subterrâneos de São Borja. Um exemplo do interesse dos pesquisadores pelo tema foi o empenho do poeta e escritor Apparicio Silva Rillo e de Cláudio Oraindi Rodrigues, assim como outros abnegados e apaixonados pela história missioneira local, que aproveitaram o advento da destruição da antiga igreja matriz, no final da década de 50, e fizeram um verdadeiro inquérito popular, em busca de fatos e relatos que remetessem a um túnel subterrâneo. Nada de concreto foi localizado na época, no entanto, muitas histórias interessantes foram levantadas, fazendo parte do imaginário são-borjense até hoje.

Foto de resquício missioneiro da Primeira Igreja de SãoBorja

Vistoria Arqueológica realizada pela Drª Raquel Rech, em trincheira em frente a Igreja Matriz

Foto da decada de 60, onde populares procuram um túnel subterrâneo.

No ano de 2007, durante obras de escavação de uma trincheira para colocação da rede telefônica, em frente à Igreja Matriz São Francisco de Borja, foram encontrados vestígios do período missioneiro. A pedido do então diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura de São Borja, Fernando Rodrigues, a doutora em arqueologia Raquel Rech verificou os remanescentes encontrados no local, e concluiu que, a cidade moderna de São Borja se desenvolveu sob as ruínas da antiga redução de São Francisco de Borja.

De acordo com Raquel Rech “foram identificadas dois tipos de pedras utilizadas nas construções jesuíticas: o Arenito, conhecida como Pedra Grês, e o Itacurú, conhecida como Pedra Cupím.” O que leva a crer que essas pedras faziam parte da antiga redução é seu alinhamento que se apresenta muito idêntico às encontradas em outras reduções, como em Santo Ângelo e São Miguel. “E parecem estar ligadas ao pórtico da antiga igreja jesuítica da redução de São Borja”, diz a doutora. Esse pórtico ficava em frente à praça central missioneira, onde aos domingos e dias santificados os nativos realizavam procissões, jogos, danças e teatros.

Em quanto a arqueóloga estava fazendo seu registro e levantamento do material encontrado, ela era interrompida constantemente pelos populares que queriam relatar suas histórias. As intervenções foram tantas que teve que se isolar o local para que a pesquisadora pudesse terminar o trabalho. Outra pessoa anotava nomes e endereços dos cidadãos que queriam relatar sua história sobre o que sabiam das reduções.

Inclusive, houve alguns populares que afirmaram categoricamente que chegaram a conhecer e entraram em um túnel subterrâneo em frente a igreja. Este fato, por si só, mostra o quanto este assunto está vivo e incutido na memória da cidade de São Borja, pois o que seria apenas uma descoberta para uma futura pesquisa de fundo histórico, se tornou o assunto mais discutido nos encontros de grupos da cidade, repercutindo inclusive na imprensa nacional. Houve relatos de pessoas que diziam que corriam por dentro do túnel quando pequenos, outras contaram que não tiveram coragem de entrar. Teve outros que queriam trazer equipamentos para passar e verificar se existia ouro, outras discordavam que não existia nada, sendo que o que estava sendo investigado era penas um remanescente do antigo templo jesuítico.

O fato é que ainda há muito a ser pesquisado e somente um Projeto de Escavação Arqueológico, que proporcione investigação de cunho científico pode sanar as dúvidas dos são-borjenses. Mas, que ganhos pode ter a cidade com esse tipo de pesquisa? Usando como parâmetros duas cidades próximas (Santo Ângelo e São Miguel das Missões), Raquel Rech afirma “que o ganho em termos turístico-cultural foi e ainda é muito grande para as cidades. Basta citar o projeto Rota Missões, em que muitas excursões que antes não entravam em Santo Ângelo, agora tem parada obrigatória, o que incrementa toda a rede de turismo cultural do município.”

Por enquanto ficamos na expectativa do interesse do poder público em voltar sua atenção para essa riqueza que está bem abaixo de nosso nariz. Em outras edições vamos aprofundar esse assunto.

Materia publicada na Edição nº01 do Jornal Armazém da cultura em Agosto de 2011.