terça-feira, 12 de junho de 2012

Bens da Humanidade sob os cuidados dos São-borjenses



Capa da Edição de Outubro de 2011

No século XVII, inicia-se no Sul da América Latina, um processo inovador de grande desenvolvimento, criando o sistema de reduções Jesuítico-guaranis, o que totalizou 30 Povoados Missioneiros sendo que no atual território do Rio Grande do Sul, tiveram suas fundações concentradas na segunda metade do século XVII, totalizando Sete Povos, e mais 08 capelas que ficavam localizadas nos intervalos de um povoado a outro, aproximadamente de 04 em 04 léguas de distância uma da outra, em meio as Estâncias de gado e ervais. Estas Capelas, serviam de local de descanso, pernoite e principalmente um local de contemplação a Deus, aonde os peregrinos que se deslocavam de redução para redução faziam suas paradas com segurança.


Mapa com a distância entre os povos Missioneiros




Como a principal missão da Companhia de Jesus em suas missões pela América, era a difusão da doutrina, a catequese, e o viver em comunidade. Esse processo de transculturação, gradativamente foi transformando o Guarani, e fazendo com que assimilasse os elementos da cultura européia transmitida pelos Jesuítas.

A vida comunitária nesta época era desenvolvida em função da Praça Missioneira e tendo como pano de fundo a magnífica Igreja, que seguia os padrões estéticos do barroco, que foi adotado pela Igreja Católica, como forma de encantar as almas. Conforme pregava René Huyghe, “se a arte pode seduzir a alma, perturbá-la, encantá-la nas profundezas não percebidas pela razão, que isso se faça em benefício da fé”.

Planta antiga da Redução de São Francisco de Borja


Por cerca de um século e meio, desenvolveu-se uma cultura cujos remanescentes, reportam sua materialidade, em um alto grau de desenvolvimento, na área da arquitetura e das artes, na sua organização social e política.

O sistema de oficinas desenvolvidos pelos Jesuítas nas Reduções, transformaram os Índios em hábeis artífices metalúrgicos, tipógrafos, escultores, pintores, músicos, ceramistas, tecelões, fabricantes de instrumentos musicais, entre outras manifestações.

A monumentalidade da riqueza da estatuária missioneira de São Borja, evidência o nível do desenvolvimento que chegou o Povo de San Francisco de Borja, em relação aos demais povos. O mesmo Índio tido pelos padrões culturais da época como indolente e incapaz, foi magistral em desenvolver um magnífico conjunto de esculturas.

Neste contexto cabe destacar a influência do Jesuíta Giuseppe Brazanelli (Irmão Brazanelli), que em nove anos que passou em São Borja, resultou em muitas obras de destaque nas Missões, sem duvida eu arrisco dizer que foi uma figura tão importante quanto ou mais que o Padre Antônio Sepp.

A figura de Brazanelli é impar para a Companhia de Jesus, teve sua formação em Milão e uma passagem por Sevilha já na condição de artista formado, mas em São Borja pode colocar em pratica suas habilidades como escultor, pintor, arquiteto, engenheiro e militar.

Sua influência na catequização dos Guaranis, e seus ensinamentos das técnicas que proporcionaram a Imaginária Missioneira de São Borja uma singularidade na expressão plástica.

Com o fim da guerra guaranítica (1754 – 1756), os índios, derrotados ateiam fogo as suas casas e oficinas poupando apenas as igrejas, com o abandono das igrejas, muitas famílias, se apoderam dos Santos das Capelas e das Igrejas, por isso que até hoje é comum pessoas possuírem Santos Missioneiros, que vem de muitas gerações, dentro da mesma família.

Em 08 de março de 1940, o Presidente Getúlio Vargas cria, em São Miguel, o Museu das Missões, com a finalidade de reunir e conservar as obras de arte, ou de valor histórico relacionadas com os Sete Povos das Missões, com projeto arquitetônico de Lucio Costa e resumos históricos de Aurélio Porto e Sergio Buarque de Holanda.


Estatuária Missioneira de São Borja

Museu Missioneiro de São Borja

Estatuarias Jesuítica Missioneira de São Borja

Estatuária Missioneira de São Borja


Escultura Missioneira

Acervo Museu Missioneiro de São Borja

 
O número total de peças reunidas no Museu Missioneiro chega a 146, tendo sido recolhidas intempestivamente de 31 localidades diferentes, exceto São Borja, conforme relata o Arquiteto Lucio Costa em relatório ao Ministro Gustavo Capanema, que devido as mas condições das estradas e muita chuva, a estatuária de São Borja não foi recolhida, cabe destacar que quando do inicio das obras no Museu Missioneiro, de São Miguel, este possuía apenas três imagens.

Em 1987, por conta das comemorações dos 300 anos de São Miguel, começou a se discutir a preservação dos remanescentes Missioneiros, e que resultou em 1989 no projeto de inventário dos Bens Móveis e Imóveis produzidos nas Missões Jesuíticas dos Guaranis, que procurou registrar e pesquisar a estatuária que estavam em Museus, Igrejas, Instituições educacionais, hospitais, em posse de particulares e também no mercado de arte e antiguidades.

Ao final do inventário 510 peças foram registradas, destas 50% estão de posse de coleções públicas e 50% de coleções particulares, cabe destacar que o maior coleção é a do Museu das Missões que totalizou 94 peças inventariadas, embora na década de 40 existia bem mais. São Borja possui 82 peças inventariadas, sendo 06 de posse da Igreja, 40 no Museu Municipal Apparício Silva Rillo, 35 com particulares e 01 desaparecida ou (foi queimada).

Estima-se em 1000 imagens a produção de estatuária dos Sete Povos. Porém, a falta de conservação, as condições climáticas, transportes precários, incêndios, roubos e outras contingências contribuíram para o desaparecimento desse patrimônio.

A atual legislação de proteção do patrimônio Histórico, não oferece mecanismos que assegurem o acesso a esses bens pelas instituições oficiais, dificultando assim, as ações de inventário e tombamento. O próprio Inventário da Estatuária Missioneira sofreu com isso, quando tentou inventariar 110 peças de um famoso colecionador de peças sacras na cidade de Porto Alegre, e teve o acesso negado, veja que esta coleção particular, é maior que a do próprio Museu das Missões.

Quando do Inventário, muitas pessoas deixaram de apresentar suas peças para serem inventariadas, com medo de serem tomadas, pelos órgãos oficiais, como ocorreu na década de 40, e creio que esta realmente embora intempestiva foi a melhor solução, pelo menos, estas peças tomadas da população na época, estão com sua preservação garantida, ao contrario das peças de particulares, que muitas vezes estão a mercê de ataque de fungos e insetos, variações meteriológicas e trafego ilegal de obras de arte.

No ano de 2007, conversava com uma família que possuía um acervo riquíssimo, e relatou que antes das peças serem inventariadas, teve duas imagens furtadas, e por ultimo, o fato que resultou na doação de todo o seu acervo ao Museu Municipal Apparício Silva Rillo, foram levadas por um Pastor da Igreja Universal, duas peças, para serem queimadas em um culto, um São Pedro (Inventário Nº RS/91-0001-0052), e um senhor Morto (Inventário Nº RS/91-0001-0053), que restou apenas o tronco intacto.

O desconhecimento da sociedade sobre esse acervo coloca em risco sua integridade. Acrescenta-se a isso a rápida deteriorização do acervo, e a ignorância do real valor dessas peças por alguns detentores, o que provoca danos muitas vezes irreparáveis.

É necessário a tomada de medidas enérgicas pelo Poder Público, e adotada políticas públicas de preservação dos remanescentes histórico-cultural missioneiro, como um laboratório técnico de restauro nas Missões, divulgação de informações técnicas e cuidados na preservação, sistema de tombamento, que é extremamente importante e vital para a preservação do patrimônio artístico do Sul do país.

Matéria publicada no Jornal Armazém da Cultura Edição 03 de outubro de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário