terça-feira, 12 de junho de 2012

A São Borja Missioneira - Um tesouro sob os nossos pês.

De tempos em tempos este assunto vem à tona. No século passado muito se discutiu sobre os subterrâneos de São Borja. Um exemplo do interesse dos pesquisadores pelo tema foi o empenho do poeta e escritor Apparicio Silva Rillo e de Cláudio Oraindi Rodrigues, assim como outros abnegados e apaixonados pela história missioneira local, que aproveitaram o advento da destruição da antiga igreja matriz, no final da década de 50, e fizeram um verdadeiro inquérito popular, em busca de fatos e relatos que remetessem a um túnel subterrâneo. Nada de concreto foi localizado na época, no entanto, muitas histórias interessantes foram levantadas, fazendo parte do imaginário são-borjense até hoje.

Foto de resquício missioneiro da Primeira Igreja de SãoBorja

Vistoria Arqueológica realizada pela Drª Raquel Rech, em trincheira em frente a Igreja Matriz

Foto da decada de 60, onde populares procuram um túnel subterrâneo.

No ano de 2007, durante obras de escavação de uma trincheira para colocação da rede telefônica, em frente à Igreja Matriz São Francisco de Borja, foram encontrados vestígios do período missioneiro. A pedido do então diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura de São Borja, Fernando Rodrigues, a doutora em arqueologia Raquel Rech verificou os remanescentes encontrados no local, e concluiu que, a cidade moderna de São Borja se desenvolveu sob as ruínas da antiga redução de São Francisco de Borja.

De acordo com Raquel Rech “foram identificadas dois tipos de pedras utilizadas nas construções jesuíticas: o Arenito, conhecida como Pedra Grês, e o Itacurú, conhecida como Pedra Cupím.” O que leva a crer que essas pedras faziam parte da antiga redução é seu alinhamento que se apresenta muito idêntico às encontradas em outras reduções, como em Santo Ângelo e São Miguel. “E parecem estar ligadas ao pórtico da antiga igreja jesuítica da redução de São Borja”, diz a doutora. Esse pórtico ficava em frente à praça central missioneira, onde aos domingos e dias santificados os nativos realizavam procissões, jogos, danças e teatros.

Em quanto a arqueóloga estava fazendo seu registro e levantamento do material encontrado, ela era interrompida constantemente pelos populares que queriam relatar suas histórias. As intervenções foram tantas que teve que se isolar o local para que a pesquisadora pudesse terminar o trabalho. Outra pessoa anotava nomes e endereços dos cidadãos que queriam relatar sua história sobre o que sabiam das reduções.

Inclusive, houve alguns populares que afirmaram categoricamente que chegaram a conhecer e entraram em um túnel subterrâneo em frente a igreja. Este fato, por si só, mostra o quanto este assunto está vivo e incutido na memória da cidade de São Borja, pois o que seria apenas uma descoberta para uma futura pesquisa de fundo histórico, se tornou o assunto mais discutido nos encontros de grupos da cidade, repercutindo inclusive na imprensa nacional. Houve relatos de pessoas que diziam que corriam por dentro do túnel quando pequenos, outras contaram que não tiveram coragem de entrar. Teve outros que queriam trazer equipamentos para passar e verificar se existia ouro, outras discordavam que não existia nada, sendo que o que estava sendo investigado era penas um remanescente do antigo templo jesuítico.

O fato é que ainda há muito a ser pesquisado e somente um Projeto de Escavação Arqueológico, que proporcione investigação de cunho científico pode sanar as dúvidas dos são-borjenses. Mas, que ganhos pode ter a cidade com esse tipo de pesquisa? Usando como parâmetros duas cidades próximas (Santo Ângelo e São Miguel das Missões), Raquel Rech afirma “que o ganho em termos turístico-cultural foi e ainda é muito grande para as cidades. Basta citar o projeto Rota Missões, em que muitas excursões que antes não entravam em Santo Ângelo, agora tem parada obrigatória, o que incrementa toda a rede de turismo cultural do município.”

Por enquanto ficamos na expectativa do interesse do poder público em voltar sua atenção para essa riqueza que está bem abaixo de nosso nariz. Em outras edições vamos aprofundar esse assunto.

Materia publicada na Edição nº01 do Jornal Armazém da cultura em Agosto de 2011.

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